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Poesia numa hora destas?!

Luis Fernando Verissimo

DESMATAMENTO

“Um dia, meu filho”

disse o velho índio

indicando o topo das árvores

como quem afasta um véu,

“tudo isto será céu.”


DETERMINISMO

Resolvido a dúvida

que todo mundo tinha.

Deus criou primeiro o ovo,

mas com instruções detalhadas

e todas as coordenadas

para virar galinha.


CONTRA-INDICAÇÕES

“Contra fel, moléstia, crime

use Dorival Caymmi”.

Contra tudo que é dark

ouça e leia Chico Buarque

labirintite, luto, pus?

É batata: Moacyr Luz.

Contra impulsos suicidas

leia coisas divertidas

até que a angústia estanque.

E muito, mas muito, Aldir Blanc.

A vida está dura? Zuenir Ventura.

Conta sem saldo? João Ubaldo.

Pavor de trombose? Zizzi Posi.

Essa sensação de segundo turno,

de desânimo generalizado,

e que de alguma maneira

fizeram você de bobo?

Não esquenta: Edu Lobo.

Contra a enxaqueca,

leia Rubem Fonseca.

Contra o debate amoroso

ouça Caetano Veloso.

Abandonado como o rei Lear?

Leia Moacyr Scliar.

Conta coriza e desdita

ouça a Maria Rita.

Contra aflição e lumbago

leia o Saramago.

Ninguém te ama, ninguém te quer?

Ouça o Charlie Parker.

Tudo é torto, tudo é tosco?

Ainda bem que tem o João Bosco.

Contra o reles,

Lygia Fagundes Telles.

Contra tudo que amola

use Paulinho da Viola.

Contra medo do Opus Dei

use Billie Holliday.

Contra qualquer tipo de crise

ouça o Mauro Senise.

E se persistir a dor

procure um médico – ou o Millôr.


LEMBRANÇA

Lembra, querida

a nossa primeira vez?

A toalha na praia, a lua,

um bolero ao fundo,

você cantando junto,

e eu com a mão nos seu...

O que? Não era você?

É mesmo. Agora me lembro.

Não era nem eu.


Domingo, 8 de outubro de 2006.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.